O que o Inep precisa responder sobre o cenário de alfabetização no Brasil

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Após pressão da imprensa, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia do Ministério da Educação (MEC), divulgou na quinta-feira, 3, os microdados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) 2023 e as médias para o 2º ano do ensino fundamental. Em nota técnica curta, o órgão aborda problemas dessas estimativas e reforça a posição da autarquia de que são as avaliações estaduais os principais diagnósticos de alfabetização no País, e não o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), prova federal.

Especialistas têm cobrado mais transparência do Inep sobre métodos para medir alfabetização
Especialistas têm cobrado mais transparência do Inep sobre métodos para medir alfabetização

Em primeiro lugar, é muito positivo o Inep, finalmente, ter divulgado os dados do Saeb para o 2º ano. Demonstra avanço importante do governo em relação à transparência desde a divulgação do Índice Criança Alfabetizada (ICA), elaborado a partir das avaliações estaduais. No entanto, é fundamental, para além da divulgação dos números, mais explicações do Inep e do MEC sobre os procedimentos adotados e os desafios enfrentados.

Um ponto que precisa de mais esclarecimentos, por exemplo, é a decisão do Inep de não divulgar os dados do Saeb 2023 conjuntamente com o ICA, visto que os resultados da avaliação federal são importantes para validar o índice. Não é razoável considerar que um tenha sido tabulado e analisado antes do outro.

Além disso, o Inep é taxativo em relação a qual seria o diagnóstico mais adequado sobre a situação de alfabetização dos estudantes no País: o ICA. Porém, mesmo que existam argumentos para isso, é preciso lembrar que a série histórica de dados sobre alfabetização teve início em 2019, com o Saeb. Assim, para realizar comparações, entender impactos da pandemia e o cenário de retomada seria adequado manter a mesma métrica.

Pelo Saeb, o cenário de 2023 se mostra pior do que o de 2019, com 49% dos alunos alfabetizados (com pelo menos 743 pontos na Escala Saeb) contra 55% de antes da crise sanitária. O ICA, ao contrário, sugere recuperação do patamar de 2019, indicando 56% dos alunos alfabetizados.

É uma diferença importante de diagnóstico, que pode até ser plausível, mas que precisa ser melhor explicada. Uma hipótese é que os alunos (e as redes de ensino) se engajam mais nas avaliações estaduais, pela publicização dos índices municipais e a existência de políticas de responsabilização em alguns Estados. Mas, mesmo que esse seja um argumento, por essa hipótese o resultado do Saeb subestimaria o índice de alfabetização tanto em 2019 como em 2023.

O Inep precisa esclarecer também o quão confiável é utilizar o ICA para realizar comparações entre municípios de diferentes Estados. Por mais que tenham sido realizados procedimentos técnicos para garantir a comparabilidade das avaliações estaduais (a chamada parametrização, com a utilização de itens do Inep em todos as provas), podem ter sido adotados diferentes procedimentos para a sua aplicação. Por exemplo: diferentes formações para os aplicadores e diferentes orientações sobre a mediação a ser feita na leitura de questões às crianças.

Fachada do Ministério da Educação.
Fachada do Ministério da Educação.

Além da parametrização, quais outras ações o Inep conduziu para assegurar a comparabilidade entre municípios de diferentes Estados? Houve procedimentos estatísticos visando a identificar possíveis fraudes? Foram analisadas as distribuições dos resultados das avaliações estaduais, comparando-as com as distribuições nos resultados do Saeb? O ICA nasce como grande ação de monitoramento da alfabetização no País, e é importante o Inep mostrar que fez ações para garantir a robustez desse índice.

Por fim, cabe abordar que lideranças do Inep têm demonstrado em falas públicas preocupação com os resultados amostrais do Saeb. Esse era um dos argumentos para a não disponibilização dos dados do 2º ano. Sendo esse um problema real — e os números divulgados ontem sugerem que de fato é, já que vários Estados apresentaram margens de erro altas em suas estimativas —, o Inep precisa fornecer mais informações do que tem ocorrido.

Por que, por exemplo, a Bahia tem margem de erro de 21 pontos percentuais nas suas estimativas? Escolas sorteadas não fizeram a avaliação? Houve alto percentual de faltas dos alunos? O Inep tem esses dados, e era esperado que eles tivessem sido apresentados.

O atual cenário indica grande inclinação do Inep e do MEC na promoção do monitoramento da alfabetização por meio das avaliações estaduais. Isso é positivo, mas, para ser efetivo e gerar os incentivos corretos aos gestores educacionais, são necessários vários procedimentos, sendo que o governo não deu transparência à sociedade se todos eles foram adotados ou estão em vistas de implementação. Não se trata apenas da disponibilização dos dados, mas também de garantir a boa condução de uma política pública extremamente relevante.

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